
Fotografar com câmeras analógicas tem me lembrado de uma coisa que talvez eu tenha aprendido antes mesmo de entender fotografia: algumas imagens não precisam ser perfeitas para serem importantes.
Quer dizer... Eu de fato aprendi isso, mas só agora comecei a ver o funcionamento na prática.

Minha mãe sempre fez muuuita questão de registrar a nossa família. Ela costumava investir em câmeras, filmadoras, álbuns e toda essa coisa relacionada a lembranças. Em qualquer situação que pudesse, ela fotografava.
O mais curioso é que ela nunca parecia viver em função disso... Ela não interrompia o momento para transformar tudo em imagem. Ela estava ali, presente, participando, rindo, conversando e ai do nada, NO SEGUNDO CERTO: click: ela fazia uma foto.
E ela nunca foi fotógrafa e nem entusiasta da área visual, pelo menos não do jeito que a gente costuma nomear isso hoje. O grande ponto é que quando eu abro os álbuns dela, quase todas as fotos parecem bonitas.
Às vezes pelo enquadramento. Às vezes pela expressão. Às vezes pela luz torta. Às vezes pelo gesto espontâneo e às vezes até por alguém aparecer distraído no fundo. Existe um acerto peculiar nas fotos feitas por ela...
É como se ela soubesse exatamente quando alguma coisa merecia virar lembrança.

Não tinha como tirar vinte versões da mesma cena. Não tinha como olhar na hora, apagar, refazer, escolher o lado melhor do rosto, repetir até parecer natural.
A foto acontecia uma vez e e depois disso, ela virava espera, mistério.... Virava torcida contra a luz, contra o tremor da mão, contra a chance de ter "queimado".... Algumas vezes virava esquecimento e depois, alegria de lembrar que o registro foi feito.

A fotografia analógica me obriga a aceitar que nem tudo está sob controle e talvez esse seja JUSTAMENTE o ponto.
Fotografar em filme parece um gesto meio teimoso. Um jeito de dizer: “isso aqui aconteceu assim”. Com o flash forte demais. Com o foco um pouco fora. Com o grão aparecendo. Com o céu estourado. Com alguém piscando. Com alguém rindo de verdade. Com uma composição que talvez eu não tivesse escolhido se tivesse tempo para pensar demais.
E sei lá... Eu gosto disso...

Essas fotos são alguns momentos especiais desde que comecei essa prática.
Ainda tô testando câmeras, filmes, possibilidades, erros e acertos. Ainda tô entendendo o que combina comigo, o que eu quero guardar, o que eu quero deixar escapar.
É que talvez fotografar com filme tem me dito menos sobre nostalgia e mais sobre presença... Tem me dito pra entender que algumas lembranças não precisam ser infinitas para serem fortes.
Que uma imagem pode ser verdadeira, mesmo que imperfeita e que nem toda foto precisa provar alguma coisa. Algumas só precisam existir :)

Gosto da sensação de que a foto não nasce pronta. Ela continua existindo em segredo até a hora da revelação. É engraçado... Quando eu olho para uma foto revelada, eu não vejo só o que aconteceu...
Eu vejo também o intervalo entre viver e reencontrar o que foi registrado.

Estranho... Eu sou um fotógrafo, mas sinto que deveria fotografar mais... Fotografar mais como se fosse um registro de um pedaço de dia guardado no escuro... Até a luz revelar.
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